Essa História de Terror, escrita por Aldo Almeida, conta sobre um Senhor que vive sozinho com sua mulher em um local isolado. Esse casal se sente muito só e, por isso, recebem estudantes de Intercâmbio em sua casa. Leia a História de Terror ‘Anna Veracchio.

O Alfa-Romeo desliza com velocidade sobre o pavimento betuminoso. Uma neblina menos densa esfumaça a paisagem repleta de arbustos secos. No banco do carona Vanessa se encolhe um pouco ao sentir o vento fresco na pele. Friozinho típico das manhãs de outono na Europa. É sua primeira viagem ao exterior. A estudante de intercâmbio escolheu a Itália para enriquecer sua formação acadêmica. Agora desfruta do doce aroma dos campos de Verona.

Estão rodando a mais de uma hora desde que o senhor grisalho a buscou no aeroporto. No encontro, após o desembarque, ele se apresentou com um sorriso identificando-se como Manolo, da família Veracchio, seu tutor nessa jornada temporária.

Já acomodada no veículo, o idoso contou sobre sua experiência. Há tempos que os Veracchios abrigam estudantes do mundo inteiro e está feliz com a visita da brasileira. Agora o assunto se esgota e seguem em silêncio pelo sinuoso caminho que corta a paisagem campesina.

Finalmente o carro dobra a curva e entra em uma estreita estrada cascalhada. A moça que se concentrava no som dos pneus triturando os pedregulhos se surpreende ao deparar com um casarão muito antigo. As paredes de pedras sobrepostas, enegrecidas pelo tempo estão tomadas de plantas trepadeiras. Apesar de apreciar o aspecto rústico, sente os pelos do braço eriçarem sobre a epiderme. A paisagem é escura, cinzenta, e a vegetação está seca, sem vida. Algo a desagrada em tudo aquilo.

O homem que descarrega a bagagem percebe a expressão da moça. Então quando se encaminha para o interior da residência com uma das malas na mão, encara a visitante e justifica o efeito monocromático da relva salientando que a paisagem ali não é muito atraente nessa época do ano. Encabulada por ser apanhada em flagrante a estudante exibe um sorriso meio torto e pede desculpas. O homem faz um gesto de “deixemos isso de lado” e a convida para entrar. Mais uma vez Vanessa se surpreende. O interior da residência é muito diferente do seu exterior. O aspecto é bem mais aconchegante com móveis modernos e rústicos lado a lado. Uma bela lareira aumenta a sensação de conforto do lugar.

Curiosa com a completa ausência de outros familiares na casa, ela questiona o anfitrião. Seu Manolo, que até agora era apenas sorrisos, fecha o semblante numa expressão triste. Conta que apenas ele e a esposa moram ali. No entanto, há seis meses que sua companheira está enferma. Permanece no quarto, deitada, enquanto ele cuida das necessidades dela e da casa. É com o dinheiro que recebe do programa de intercâmbio que paga as despesas médicas, mas ultimamente poucos estudantes escolhem vir para uma casa em um local tão isolado.

Vanessa sente os olhos umedecidos. A dedicação do homem à esposa a comove. O velho limpa uma lágrima no canto dos olhos com as costas da mão. Ela sente vontade de abraçá-lo, mas apenas sorri e diz que admira sua coragem e determinação. O homem altera a fisionomia e o cenho alegre ressurge. Ele faz sinal para ela o seguir e aponta a direção do cômodo. Seu Manolo a ajuda com as malas e os dois entram por um corredor estreito e mal iluminado.

Nas paredes, os rostos dentro das molduras parecem encará-la. Uma porta entreaberta chama a atenção da garota. Lá dentro, apesar da penumbra, pode ver a silhueta de alguém sobre uma cama enorme coberta por uma fina cortina de rendas. O dono da casa pára por um instante e fecha a porta. Ele então se volta para ela e pede que nunca abra aquela porta. Todo o restante da casa está à sua disposição, mas a sua esposa não pode ser incomodada. Vanessa assentiu com exagero, expressando sua total colaboração. Enfim ela entra em seu aposento provisório. O idoso ainda dá algumas instruções sobre a localização do banheiro e como ligar a água quente. Vanessa escuta com paciência e depois fecha a porta. Exausta, deixa-se cair na cama.

A longa viagem e todos os entreveros do percurso faz doer os seus ossos. Vencida pelo cansaço acaba adormecendo. Vanessa acorda assustada. Pensa ter ouvido alguém chamar seu nome e senta-se na cama com um salto. Por um instante não lembra onde está. Tenta se situar no tempo e no espaço. Sim, está na casa do casal italiano, recorda. Levanta e percebe que ainda não trocou as roupas. Sente a garganta muito seca. Veste então um moletom e resolve procurar a cozinha. O relógio na parede arrasta lentamente seus ponteiros. A madrugada vai alta.

A moça abre a porta do quarto cuidando para não provocar ruídos. Atravessa lentamente o corredor com pés macios. Os demais cômodos estão fechados. Vanessa alcança a sala. Antes de entrar na cozinha um barulho estranho a sobressalta. Seu coração dispara e, mesmo sabendo que não está fazendo nada de errado, procura um lugar para se esconder. Enfia-se atrás de uma estante carregada de livros e prende a respiração com a mão na boca. Um barulho pequeno, baixo, repetitivo, sussurra no silêncio lúgubre da noite:

-Cheeep, cheeep, cheeep…

Vanessa espia e vê uma sombra, um vulto com o perfil de uma senhora idosa que se encaminha para o corredor arrastando os pés, provocando o ruído sinistro com os chinelos:

-Cheeep, cheeep, cheeep…

Observa que a sombra entra no quarto misterioso e fecha a porta.

A estudante enfim respira e tenta acalmar suas palpitações. Pensa em avisar o senhor Manolo que a esposa está perambulando pela casa. Porém ele pode pensar que ela incomodou a mulher e ficar aborrecido. Então, apenas busca sua água e volta a se deitar.

No dia seguinte ela vai ao encontro das finalidades de sua viagem. Conhece a Universidade e faz novos amigos. Depois aprecia um pouco a cidade do casal shakespeariano Romeu e Julieta. Muitas estrelas já despontam no infinito quando a estudante retorna ao casarão. O velho Manolo abre a porta e a recebe com o costumeiro sorriso. Revela que acabou de preparar um delicioso jantar italiano e a convida para a mesa. Com as emoções do primeiro dia em terra estranha, ela não havia parado para se alimentar. Então foi com muito gosto que aceita o convite.

Durante a refeição, a gentileza do homem provoca remorso. Sente-se incomodada. Tem vontade de revelar o que viu na noite anterior. O idoso está de cabeça baixa, se alimentando em silêncio do outro lado da mesa. Ela o observa e encabulada começa a narrar o evento que presenciou. Manolo parece ter levado um choque. Derruba o garfo sobre o prato e começa a tossir descontroladamente. Engasgou-se. Vanessa levanta com agilidade e desfere algumas palmadas com a mão aberta nas costas do afogado. Ele faz sinais com as mãos para ela parar e cessa as convulsões. Ela volta ao seu lugar exibindo olhos surpresos. O homem respira fundo e bebe um pouco de água. Enfim olha para a acadêmica com a face séria e esclarece: Sua mulher sofreu um derrame. Está completamente paralisada e é impossível que ela saia do quarto sem o auxílio dele e uma cadeira de rodas. Vanessa pensou em responder. Dizer que está enganado porque ela viu a mulher andar, mas engole as palavras. Não deseja contrariar o dono da casa e sabe que o assunto não lhe diz respeito. Mas por outro lado o fato a intriga. E se o velho for tão possessivo a ponto de inventar uma doença para manter a mulher em cárcere privado? Não, ele não pode ser tão louco, pensa por fim.

Terminado o jantar o dono da casa diz que ela pode ir para o banho enquanto ele retira a mesa. Agradecida mais uma vez e aliviada, pois o dia foi exaustivo, ela apanha uma toalha e seus apetrechos de asseio e se dirige para o banheiro no fim do corredor. Já no ofício restaurador de energias, Vanessa sente cada gota correr pela sua pele dançando entre os folículos pilosos. Agradável sensação. Está nesse torpor de sentidos quando ouve um som já conhecido:

-Cheeep, cheeep, cheeep…

Vanessa gira a válvula da água e o chuveiro seca. Aguça os ouvidos e o arrastar de chinelos está cada vez mais audível. Parece vir da porta. Então a porta se abre. A moça manifesta em voz alta que o lugar está ocupado. Mas aquele sussurro continua, agora dentro do banheiro:

-Cheeep, cheeep, cheeep…

Então, repentinamente, uma sombra se revela atrás da cortina semitransparente. Vanessa se assusta a princípio, mas se controla e pergunta à mulher se está precisando de ajuda? Nenhuma resposta.

Solícita, a estudante puxa a cortina com agilidade. Está sozinha. Isso a assusta. Pega a toalha com mãos trêmulas e sai do chuveiro. Coloca os pés para fora do Box e cai de costas no piso escorregadio. Vanessa quase desmaia tamanho o susto ao ver o chão completamente tomado por um líquido rubro e pegajoso.

Trêmula de pavor se arrasta até seus pés firmarem. Levanta-se e corre para o quarto. Fecha a porta, senta-se no chão e chora baixinho. Ela sabe que é uma pessoa racional então tenta organizar os pensamentos. Procura uma lógica. Então, em um estalo, pensa: “A mulher!” Sim, a esposa do Seu Manolo deve ter entrado no banheiro, muito ferida procurando socorro e como ela se acovardou a pobre coitada saiu em busca de auxílio em outro lugar. Vanessa se reprime pela covardia.

Veste-se rapidamente e sai à procura da idosa. Porém se detém logo na porta. Nota que deixou a luz do banheiro acesa e pode ver nitidamente o piso. Está limpo! Sem nenhuma mancha de sangue. Estaria enlouquecendo? Pode as diferenças de ambiente e horários atingi-la tanto assim? E se o velho for um psicopata? Machucou a mulher e limpou o sangue? Decide então entrar no quarto emblemático.

Abre a porta com muita prudência. A escuridão é cortada por uma fraca luz de luar que penetra pela janela. As cortinas dançam suavemente ao sabor de uma brisa que se espreme entre as frestas. Lá está a cama de madeira bruta em baixo da tenta feita de um fino tecido rendado. Vanessa afasta delicadamente a cortina e chama a mulher:

-Sra. Veracchio? A senhora está bem?

Insiste mais duas vezes na pergunta, mas a convalescente não responde.

Preocupada com o excesso de silêncio, ela busca o interruptor e acende as luzes. Vanessa não contém o grito de horror ao ver sobre a cama um esqueleto. No crânio uma peruca grisalha e o corpo trajado com um longo vestido negro como se aqueles ossos ainda possuíssem vida.

A moça está alterada, treme e chora convulsivamente. Deseja fugir imediatamente da casa macabra o mais rápido possível. Então vira-se e mal consegue ver o objeto pesado que a atinge com velocidade na cabeça. Vanessa acorda sentindo uma dor aguda e insuportável nas têmporas. Tenta levar a mão à nuca, mas sente os pulsos presos. Todo o seu corpo está atado com cordas em uma cadeira. Tenta gritar, mas não consegue articular palavra. Uma tira de tecido cobre sua boca e sente que um lenço toma grande parte do espaço entre sua língua e o palato. Observa à sua volta. Percebe que ainda está no quarto do cadáver. Firma os olhos tentando ver na escuridão. É nesse momento que repara que em uma das extremidades da cama um homem está sentado de costas para ela. É o velho Manolo. Ela se agita tentando chamar a atenção dele. Porém, inalterado, ele começa a falar:

-Conheci Anna na Província de Bérgamo. Isso foi há muito, muito tempo mesmo. Eu não sabia como era gostar tanto de uma pessoa antes de conhecê-la. Ela tinha tudo o que eu admirava em uma mulher. Linda, inteligente, meiga. Nos casamos depois de apenas dois meses em que a vi pela primeira vez. Não sei o que ela viu em mim, mas os anos que vivemos juntos foram os mais felizes da minha vida. Quando nos mudamos pra cá foi para cuidar melhor da saúde dela. Estava fraca e já não raciocinava direito. O ar do campo deveria curá-la. Eu pensei até que havia dado certo. Um dia nos ofereceram a oportunidade de ganhar algum dinheiro abrigando estudantes. Essa casa sempre foi grande demais para apenas um casal de velhos decrépitos, então aceitei. No começo foi muito bom. A casa estava viva novamente e minha querida esposa animou-se mais. Chegamos a abrigar cinco estudantes de uma só vez. Mas então alguma coisa começou a dar errado. A polícia veio e disse que alguns dos jovens que estiveram aqui não retornaram para seus países de origem. Acabaram se convencendo de que se tratavam de oportunistas que resolveram residir ilegalmente na Europa usando o intercâmbio como porta de entrada. Mas então chegou o dia fatídico. Fui ao centro buscar provisões e cheguei tarde a casa. Estávamos abrigando apenas um rapaz do Japão. Entrei e ouvi minha mulher cantando na cozinha. Um cheiro bom de comida invadiu meus sentidos. Deixei as compras na mesa e fui para a cozinha. O que vi é descritível mas o que senti nesse momento não posso… não consigo dizer. Ela estava lá, de frente para o fogão mexendo as panelas. Em cima da mesa pedaços de carne crua estavam separados em diferentes recipientes. Um forte cheiro de sangue se confundia com o aroma de temperos que exalavam das panelas. Mas o vômito só escapou das minhas entranhas quando vi um corpo mutilado, desmembrado e decapitado no chão. Havia tanto sangue…

O velho pausa a narrativa e derrama lágrimas sentidas. Depois respira fundo e retoma a linha de raciocínio.

-Descobri depois onde ela jogava os restos dos corpos, ou aquilo que ela não devorava. Temos um velho poço na propriedade. Fica lá atrás depois do galpão. Você não conheceu. Ela se livrava de tudo, pertences documentos, restos humanos. Tudo dentro do velho poço. Tentei pará-la, mas ela fez de novo. Eu não tive escolha. Uma dose, apenas uma dose de raticida foi suficiente. Era melhor que vê-la trancada em um manicômio judiciário. Aqui posso ficar com ela, cuidar dela. Você não vai levar ela de mim. Não vai contar histórias por aí. Isso vai ser bom. É bom que ela tenha uma companhia. Ela se sente muito só.

Vanessa se desespera. Debate-se na cadeira tentando escapar. Mas em vão. Está completamente imobilizada. A luz penetra pelas cortinas anunciando o raiar do dia. Manolo se levanta e cabisbaixo caminha para a saída. A estudante lança um olhar súplice para seu carrasco, no entanto ele se retira e fecha a porta. A moça cai em prantos. Tenta emitir som mas nada se ouve. Aliás, quase nada.

-Cheeep, cheeep, cheeep…

Autor: Aldo Almeida

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