Como pode existir tal criatura? Eu me pergunto todas as noites em que passo fugindo da sombra que me persegue noite após noite, sem nunca se aproximar, testando a minha sanidade que já está a ponto de ceder à loucura.

Tudo começou quando, em minha plena ingenuidade, eu e meu amigo; que ouso, com dificuldade, vos dizer o nome, Martin A. Nygaard; nos dirigíamos para o navio que nos levaria de Boston de volta para Copenhague. Estávamos ambos exaustos pela curta viagem para o fim de pesquisas que tínhamos ido fazer na universidade de Harvard, sendo eu um historiador e o meu amigo um Teólogo, ambos professores da universidade de Copenhague.

Mesmo após o tempo de estudos em que nossas pesquisas não se cruzavam em momento algum, eu via ele o suficiente para perceber que estava agitado por algum motivo que eu desconhecia e que ele parecia não querer falar para ninguém. Confesso que sempre preferi viajar em alto mar do que no céu por causa da quietude que sempre acompanhava o oceano parado, mas daquela vez havia algo de errado pois, por um motivo que até hoje desconheço, as gaivotas e outras aves marinhas pareciam agitadas, crocitando, e o ar estava tão salgado a ponto de fazer com que os meus olhos ardessem até o ponto de mal mantê-los abertos.

Hutaro Benigles, esse foi o nome dito para mim pelo meu amigo enquanto jantávamos após eu, com uma duradoura insistência, ter o tirado de seu silêncio de medo de algo. Ele nada mais disse sobre o portador desse nome, mesmo após as minhas infantis insistências. Supus logo que fazia parte da pesquisa que estava fazendo com teólogos renomados. Planejava ao chegar na cidade de Copenhague pesquisar sobre isso, pois o nome parecia-me familiar, como se a qualquer momento eu fosse lembrar quem era ele, mas que a lembrança nunca chegava mesmo após muita insistência. Supus após bastante tempo que eu nunca ouvira aquele nome, mas que achava aquilo apenas pelo conforto causado em pensar nele.

Ele mudou de ideia subitamente e então começou a contar sobre a pesquisa que tinha feito. Me contou sobre ter sido encontrada uma no exato ponto central do mar vermelho. De acordo com ele uma universidade tinha feito uma expedição lá para conhecer, já que pouco tempo antes, um hieróglifo mesopotâmico mostrara aquele ponto. Após um sério problema em que um dos alunos de arqueologia tinha assassinado os companheiros, a expedição teve que voltar e o rapaz foi alegado como insano e mandado para um manicômio.

Nunca mais ninguém tinha conseguido encontrar aquela ilha de novo, mas aquela expedição tinha trazido para o resto do mundo uma tábua de argila feita por humanos trazida da ilha onde não tinham encontrado mais nada que mostrasse já ter tido humanos naquele local. A tal argila tinha escrito, em um dialeto que era a mistura das mais antigas línguas do mundo, o nome Hutaro Benigles e um desenho de uma divindade.

De acordo com ele, nunca tinham encontrado o significado desse nome, mas o surpreendente é que prestando atenção em registros históricos do mundo inteiro, viram que em cada geração uma criança da alta sociedade era batizada com esse nome de forma aleatória. Sempre havia um Hutaro Benigles pelo mundo, assim que morria, nascia outro em um local aleatório. De acordo com ele todos mantinham uma mesma semelhança: um rosto deformado, alguns de nascença, outros por doenças que se desenvolveram depois e outros por ferimentos. Ele disse que estava assolado por um forte azar depois que supunha sem nenhuma evidência que esse era o poder de tal divindade. Claro que no começo eu não compreendi, pois sabia que ele, mesmo sendo teólogo, era a pessoa mais ateia que eu conhecia.

Depois disso, para animá-lo, fomos até um pequeno cassino que estava conosco no navio. Por ser pequeno, pois o navio não era grande, havia apenas algumas mesas de jogos de baralho e uma ou duas máquinas. Eu insisti que jogássemos, pois a chatice de estar em um navio onde o professor Nygaard era o meu único conhecido me deixava entediado.

Tentamos de tudo, poker, truco e blackjack. Confesso que venci alguns jogos e que acabei lucrando com as atividades, mas, mesmo depois de muitas apostas, o professor Nygaard não vencera nenhum jogo, gastando assim todo o dinheiro que tinha de sobra para a viagem. Tentei oferecer os meus lucros para ele, mas ele não aceitou, dizendo, com muita confiança, que iria perder tudo mais uma vez. Ele não demonstrava tristeza pela perda do dinheiro, na verdade ele parecia a ponto de ter um desmaio do mais profundo medo. Tentei animá-lo, mas ele, em seu silêncio misterioso, apenas voltou para a sua cabine para dormir com a esperança de que o próximo fosse melhor.

Eu fui até o quarto dele tentando devolver-lhe a razão de que tudo aquilo que ele chamava de azar era apenas um efeito psicológico por ele acreditar naquilo, pois ele, mais do que ninguém, sabia como a mente brincava com ela mesma quando se acreditava em algo, criando divindades e encontrando o que se procura. Ele gritou comigo, me ofendeu e disse que dessa vez era diferente. Ele tinha dito que tinha me contado tudo aquilo com a esperança de que a tal maldição fosse passada para mim, mas pelo que tínhamos visto nos jogos ele continuava sendo o hospedeiro. Fiquei com raiva dele ter tentado fazer aquilo comigo, mas percebi o desespero que ele estava sofrendo e fui embora.

Após muito esforço para procurar fontes de entretenimento, eu fui obrigado a ir dormir no mesmo turno que o resto do navio. Lembro muito bem que aquela noite foi a mais perturbada da minha vida inteira pois, mesmo sentindo dor nos olhos de tanto sono, eu não conseguia perder a consciência.

Eu rolava de um lado para o outro na cama, sentindo todos os meus medos de criança se tornarem vultos na escuridão. Mas o que realmente me perturbava era aquele nome, aquele maldito nome que ressoava na minha mente de forma calma e perturbadora. Pareceram passar éons, como diria o meu ídolo H. P. Lovecraft, até que finalmente a minha consciência se esvaísse e só percebesse na manhã seguinte.

Após o nascer do sol eu, à procura de uma fonte de entretenimento pelos dias entediantes que se seguiam em todas as viagens de navio, andei pelo navio sem nem mesmo desjejuar.

Enquanto andava pelo convés, eu vi o meu único amigo naquele navio no parapeito, olhando concentrado para um fina faixa de terra que se estendia no horizonte, era uma ilha da qual eu nunca ouvira falar até entrar no navio em que pessoas de vez em quando sussurravam umas com as outras o nome da ilha: Beneventi.

Eu tentei chamá-lo, mas logo senti um forte desânimo causado por fatores que deveriam ser insignificantes; o silêncio prevalecia, sendo cortado apenas pelo som de uma criança saltitando em minha direção, com os cadarços desamarrados. Uma sensação de desaceleração percorreu a minha mente, parecia que o tempo estava cada vez mais lento. Logo a menina passou por mim e tudo voltou ao normal. Era incrível como parecia que o mundo todo estava me dizendo que algo iria dar errado. E foi o que aconteceu.

O meu amigo se inclinou para frente, estendendo a mão para a faixa territorial, como se estivesse tentando segurar ela. Ele se inclinava mais e mais, demonstrando estar com dificuldade para ver a ilha. Lembrei logo que já haviam tempos que ele insistia não querer usar óculos mesmo precisando. Logo eu percebi que ele estava em perigo por estar inclinado demais sobre o parapeito. Gritei, corri na direção dele, mas quando ele finalmente percebeu o que eu estava fazendo já era tarde demais, ele perdeu o equilíbrio. Eu já tinha chegado nele naquele momento e estendi a mão para segurá-lo e senti a mão dele deslizando pela minha enquanto caía e, finalmente, vi o impacto entre ele e a água.


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Eu, sentindo a adrenalina do momento, corri procurando uma boia e joguei-a para ele. Eu gritei para ele tentar segurar. Ele lutava para se salvar, mas pequenas ondas do mar calmo o jogavam de um lado para o outro o impedindo de cumprir o objetivo. Os meus gritos de pouco em pouco foram fazendo com que as pessoas se juntassem a minha volta, olhando pasmas para o professor Nygaard tentando se salvar do mar.

Passaram-se muitos minutos agonizantes enquanto todos olhavam ele falhar em se segurar na boia. Me perguntei muitas vezes o motivo de ninguém tentar pular na água para salvá-lo, mas logo percebi que nem mesmo eu tentara fazer aquilo. Estávamos todos preocupados com a nossa própria pele e, por isso, não nos dávamos ao trabalho de ajudar. Então, após muito tempo, ele afundou na água me fazendo gritar de tristeza e ódio. Após isso eu nunca mais o veria.

Depois daquilo, eu me surpreendi com o quanto as pessoas pareciam não se importar com a morte dele, na verdade, todos se divertiam e continuavam com suas vidas pacatas no navio. Eu odiava aquilo, eu sentia vontade de gritar, bater em alguém, descontar toda a raiva que estava sentindo em algo.

Eu tentei muitas vezes convencer alguém a fazer algo, mas todos diziam que não tinha o que fazer. O meu amigo estava morto. Eu, muitas vezes tentei falar para pararmos na ilha de Beneventi, mas todos diziam que isso não era possível, pois a ilha nem cais tinha e ela era totalmente particular. Não teria o que ela fazer para nos ajudar. Não havia nada que nós, um navio no meio do Oceano Atlântico, pudéssemos fazer.

Talvez eles estivessem certos. Talvez com a morte de alguém, os outros deveriam seguir em frente. Eu demorei o dia inteiro de puras mágoas para conseguir me convencer disso, a vida continuava. Não era por uma morte que todos nós deveríamos morrer junto. Eu me perguntava o que iria dizer para a universidade quando chegasse lá e, pior, o que diria para a família do meu amigo.

Naquela noite, mais uma vez eu não conseguia dormir. O sono fazia os meus olhos doerem e os meus músculos se contraírem, mas, mais uma vez, a minha consciência não se esvaía. Após muito tormento, cheguei à conclusão de que algo anormal estava incomodando as minhas noites e que essa coisa poderia ser o que o meu amigo tanto temia desde que a estudara em Harvard.

Sem hesitar, saí da cabine onde eu dormia sozinho às três horas da madrugada e comecei a andar pelos corredores à procura de algo que não sabia o que era. Por muitas vezes eu pensei que talvez eu estivesse procurando entretenimento como sempre fazia, mas logo me convenci de que estava à procura do vulto que não me deixava dormir e que, talvez, tirara a vida do meu amigo.

Mesmo estando no meio da madrugada, era surpreendente o silêncio dos corredores, chegava a ser ensurdecedor e a imagem dos corredores vazios se estendendo até ao longe, me fazia suar frio. Parecia ser o mais obscuro dos labirintos. Havia algo de errado, parecia sempre haver algo de errado nesse navio.

Logo eu parei de súbito ao ouvir um som ao longe, um som vindo do corredor que se encontrava com o que eu estava. O som se aproximava e em poucos segundos de tormento pelo medo chegaria na esquina. Eram batidas no chão, cada vez mais altas pela distância que diminuía. O meu coração acelerou naquela hora, eu não sabia o que iria ver, e isso fazia com que eu tentasse mover o meu corpo, mas ele se mantinha paralisado.

De repente surgiu na esquina uma menina saltitando, lembrei de tê-la visto pouco antes morte do meu amigo. Ela parecia feliz, apesar de eu não saber o que ela estaria fazendo brincando pelo navio no meio da madrugada; abruptamente ela pisou no cadarço desamarrado, caindo com velocidade e força, fazendo um grande estrondo quando sua cabeça bateu no chão. Eu foquei a minha visão nela ao perceber algo a mais, ela não se levantava, eu estava cada vez mais desesperado por isso. Ela não respirava, permanecia ali. Levou alguns segundos para eu aceitar que ela morrera de forma tão estúpida. Em minha mente surgiu a ideia de que a batida tão forte entre a cabeça dela e o chão quebrara o seu pescoço.

Quando dei um passo à frente para socorrê-la eu me paralisei ao ver aparecer da esquina a pessoa que estava seguindo ela. Os meus olhos se arregalaram, o meu corpo inteiro pareceu gelado. Senti o meu peito doer pela minha respiração parar completamente, era como se um medo descomunal destruísse a mim ao ver tal criatura.

A aparência do sujeito era indescritível, apenas uma única palavra se aproximava de explicar como ele era. Terror, a única coisa que é possível dizer dele. Juro que até hoje procuro palavras para descrever exatamente sua aparência, mas tenho certeza que nunca foram criadas tais palavras e que mente nenhuma seria capaz de imaginá-lo. Assim como seria impossível, para nós, imaginarmos uma nova cor primária ou um novo sentido.

Ele parecia, não sei como foi possível para mim conseguir ler a sua expressão, saber da minha presença; pois ele se virou lentamente para mim, tão lento que parecia que o tempo tinha parado. O medo tomou conta da minha pessoa, tanto medo senti que, assim que me olhou a minha consciência se esvaiu até não sobrar absolutamente nada.

Os meus olhos se abriram depois do que parecia ter sido uma eternidade. Eu não entendia onde estava; era uma grande sala decorada com animais empalhados. Eu estava sentado em uma poltrona e à minha frente, um homem sentado em uma mesa de trabalho jantando. Atrás dele haviam duas estátuas de pedra de anjos segurando bacias de água também feitas de pedra talhada.

Logo reconheci quem era aquele homem, era o capitão do navio que eu vira uma ou duas vezes. Então, desesperado, eu comecei a falar de tudo o que aconteceu. Falei das duas mortes que eu presenciei e da coisa que estava no navio e que poderia ameaçar a vida de mais pessoas. Falei que deveríamos parar o navio o mais rápido possível em algum lugar.

Eu estava tão desesperado que as palavras saíam embaralhadas e eu duvido que ele tivesse entendido o que eu estava falando. Mas o que mais me surpreendia é que ele continuava jantando como se eu não estivesse falado nada.

Ele mandou que me calasse. Eu o fiz e ele continuou comendo até terminar. Ele então, disse que eu deveria estar muito aflito por ter visto duas mortes pessoalmente em um período tão pequeno de tempo, principalmente pelo fato de uma delas ser um amigo meu e a outra uma inocente criança. Ele me contou que há muito tempo, tinham encontrado aquele navio abandonado; naquele tempo era apenas um navio de madeira, provavelmente tinha pertencido aos piratas.

As pessoas tinham amado tanto o navio, que reformaram-no; na verdade o navio tinha sido reformado tantas vezes que já não restava mais nada do antigo navio de madeira, mas mesmo assim, algo continuava ali. Ele disse que, de alguma forma, coisas estranhas aconteciam no navio, e não eram relacionadas ao sobrenatural, na verdade era apenas azar. Um azar terrível que fazia mal às pessoas.

Ainda desesperado eu tentei contar a ele sobre o Hutaro Benigles, sobre como ele tinha causado tudo isso, mas o capitão enfiou o garfo na mesa gritando para que eu me calasse.

Ele disse que era um homem da ciência, então nunca acreditou em tal coisa, para ele isso sempre tinha sido apenas um conjunto de coincidências. Ele disse que seria impossível parar o navio em algum lugar, pois nós estávamos em um ponto do oceano atlântico que não havia nada por perto, apenas mar. Em sua calma ele me disse que conversou com o professor Nygaard e que o meu amigo havia conseguido convencer ele de que existia algo que o seguira até o navio. O capitão me disse que havia uma forma de fugir daquela criatura.

Ele se levantou e foi olhar pela janela. Estava calmo, mas com um olhar vazio. Disse que não havia como fugir do deus pagão do azar e pôs um revolver na própria cabeça. Eu tentei gritar, mas foi tarde demais. Com um alto estrondo, o projétil atravessou a cabeça dele fazendo sangue voar por toda a sala. O homem já morto caiu ao chão.

Eu pasmei vendo o corpo morto do homem que até pouco tempo estava conversando comigo. Após longos momentos de desespero eu saí correndo. Corri pelos corredores gritando por ajuda, mas ninguém respondia. Logo encontrei outro cadáver no chão, era de um homem que carregava uma bandeja de taças quando caiu. As taças estavam quebradas e um grande caco de vidro estava dentro da artéria do seu pescoço. Sangue se espalhava para todos os lados.

Isso me fez correr mais ainda pedindo ajuda. Não demorou muito para encontrar outros cadáveres, todas as pessoas do navio estavam mortas por acidentes domésticos ou de trabalho. Passei muito tempo correndo e gritando à procura de qualquer um que tivesse sobrevivido, mas logo percebi que eu era a única pessoa viva no navio, e que, sendo fadado a ficar naquele lugar com tal criatura eu tinha sido o mais azarado dos homens.

Hoje, escrevo isso na esperança de que, assim que encontrarem esse navio vagando em alto mar e me encontrarem em plena loucura, deixem-no onde estiver e que nunca mais voltem a colocar pessoas na moradia de Hutaro Benigles.

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História de Terror Hutaro Benigles

A História de Terror ‘Hutaro Benigles’ foi escrita por Jonathan Rocha e corrigida por Escrita Sombria

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