Eu a observava de longe.

Não sei o porquê, mas aquela garota chamava minha atenção.

Estava sempre sozinha na hora do recreio, sentava na sala de aula, lá no fundão, mas não trocava uma palavra com nenhum outro aluno.

Um dia, ela chegou na escola com o corpo cheio de manchas roxas, cabisbaixa. Não aguentei e fui falar com a coordenadora.

Esperei fora da coordenação, pedi licença e entrei.

Comecei minha conversa, preocupada, com a coordenadora:

– Desculpe o incômodo, Sra., mas tem uma menina que estuda comigo, e acho que ela tá passando por sérios problemas. Ela não conversa com ninguém, fica sozinha na hora do recreio… e hoje ela chegou com manchas roxas pelo corpo. Por favor Sra., ajude-a. Pensei em conversar com algum professor, mas eles são tão distraídos, parecem não se importar.

A coordenadora, que estava o tempo todo de cabeça baixa atrás de sua mesa, levantou a cabeça depois de me ouvir e disse:

– Calma, jovem. Leve-me até essa garota. Prometo que farei algo pra ajudar.

Agradeci, e levei a coordenadora para vê-la de uma certa distância, porque eu tinha vergonha de parecer intrometido, e disse:

– Ali está ela, Sra.

A coordenadora foi em direção a garota, sentou ao seu lado e ficou ali um bom tempo sem olhar pra garota, e sem dizer nada. Aquilo já estava me incomodando, mas quando olhei de novo, elas estavam conversando.

Decidi ir pra sala de aula, sentei e tudo seguiu normalmente.

No outro dia, na escola, quando entrei na sala de aula, lá estava a garota, de cabeça baixa, triste e sentada.

Sentei na cadeira e assisti as aulas como sempre.

No intervalo, fui à procura de respostas da coordenadora.

Pedi licença e entrei:

– Sra. me desculpe, mas está tudo bem com a menina?

A coordenadora olhou fixamente pra mim e disse:

– Não querido, não está nada bem. Presumo que só você pode ajudá-la.

Não entendi nada. Como assim, só eu posso ajudá-la?

Perguntei a coodenadora:

– Só eu posso ajudar? Mas como?

A coordenadora disse:

– Vá conversar com ela.

Aquilo me deu uma aflição, eu tinha medo, sei lá… fiquei nervoso. Mas, fui atrás da garota.

De longe, a vi ali, sozinha, triste e de cabeça baixa.

Me aproximei, sentei ao lado dela e, quando tive coragem de olhar pra ela, vi que ela estava em prantos.

Não sabia como agir, mas finalmente a coragem me veio e perguntei:

– Tudo bem com você?

Ela só chorava sem parar, e me olhou como se estivesse esperando mais de mim.

Então, eu peguei nas mãos dela e segurei forte.

Ela parecia mais calma, mas ainda chorava, então olhou pra mim, e o olhar dela penetrou tão profundamente, que algo que esqueci ou decidi não lembrar mais, veio à tona.

Lembrei… Eu estava na escola, vi aquela menina sentada lá no fundão, e alguns meninos falavam coisas baixas e horríveis pra ela. Eu não entendi bem. Depois, na hora do recreio, vi dois meninos puxando ela pelo braço e a levando pra um lugar escondido. Lá, tinha mais dois meninos; os quatro bateram muito nela, a estupraram, e todos xingando e a ameaçando que caso ela contasse pra alguém, seria muito pior.

Eu via aquilo tudo e não fazia nada. Todos os dias, a mesma coisa. Até que um dia, quando cheguei na sala de aula, um dos professores, estava avisando que não haveria aula naquele dia, porque uma de nossas colegas havia falecido. Olhei lá pra trás, e lá estava a cadeira dela vazia.

Quando voltei daquela lembrança, não consegui me conter. Chorei muito… Pedi, muitas vezes, perdão a ela, por minha covardia. A abracei e choramos muito, juntos.

Mas, ela não estava ali por isso. Tinha algo a mais, algo que eu precisava resolver pra ficar livre por completo.

Ela me segurou pela mão e me levou para trás da escola. Eu matei um por um, dos quatro garotos. Cada vez que eu matava um garoto e escondia o corpo, pensando que estava fazendo a coisa certa, mais me afundava na culpa de não ter feito nada pra ajudar a menina. E o pior, me tornei um assassino. Não demorou muito pra que eu fosse preso. Como era de menor, fiquei detido num centro de reabilitação pra menores, e lá, solitário, não aguentava o peso da culpa.

Como eu fui fraco, só o que pensei naquele momento…

A garota me levou até a coordenadora. Aquela Sra. jovem ainda, olhou pra nós dois e perguntou:

– Tudo resolvido?

A garota balançou a cabeça afirmando.

Então a coordenadora disse:

– Vão em paz jovens, vocês não tem mais nada pra fazer aqui, pois não é mais o lugar de vocês. Estão livres. – E sorriu.

Realmente me sinto livre agora.

“A primeira coisa que fiz antes de entrar aqui foi, tirar meus sapatos. Todos andamos assim, aqui não precisamos deles.”

História de Terror escrita por Observadora.

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